Ao longo de mais de 50 anos dedicados à humanização da execução penal e à consolidação do Método APAC, a busca por caminhos eficientes na ressocialização de pessoas privadas de liberdade revelou que a metodologia não nasce de teorias abstratas, mas da convivência real nas unidades prisionais. Em uma reflexão marcante sobre sua trajetória, Valdeci Ferreira, Diretor do Centro Internacional de Estudos do Método APAC (CIEMA), compartilhou os principais ensinamentos acumulados ao lado dos recuperandos, destacando a necessidade de uma postura de constante aprendizado e empatia para a reconstrução de vidas.

Uma das constatações mais impactantes advindas dessa longa vivência desconstrói a vaidade técnica e aponta para a importância da escuta. Valdeci relembra “Depois de 13 anos trabalhando com os presos, descobri que de preso nós não sabíamos nada. Porque, ao final, quem conhece o problema é quem está atrás das grades”. Segundo o diretor, quem entende o peso da prisão é o indivíduo que, ao fim do dia, coloca a cabeça no travesseiro e nota a passagem dos melhores anos de sua juventude, ou aquele que se despede da família sem a certeza do reencontro na semana seguinte. Por essa razão, a metodologia apoia-se na escuta assertiva e no aprendizado diário com o próprio recuperando, posicionando os profissionais do sistema como eternos aprendizes dessa complexa realidade.
Essa aproximação exige também um olhar profundo sobre a própria condição humana e a natureza do erro. Para a consolidação de um trabalho restaurativo, compreende-se que o delito não é uma abstração alheia à sociedade, mas um fenômeno profundamente ligado ao comportamento humano. Ao evocar o pensamento agostiniano, pontua-se que a raiz do bem e do mal reside no coração de todo indivíduo e que o crime é uma manifestação à qual a humanidade está sujeita. A tomada de consciência de que a posição do outro poderia ser ocupada por qualquer pessoa é o elemento que afasta posturas autoritárias, abre espaço para uma empatia genuína e permite que a recuperação ocorra com firmeza, rigor e profundo respeito à dignidade.

A experiência acumulada ao longo de meio século reforça a premissa de que a falta de recuperação no sistema prisional tradicional decorre, em grande medida, da oferta de um tratamento inadequado. A prática demonstra que, havendo a disposição do recuperando somada a um ambiente favorável e à aplicação de uma terapêutica penal adequada, a mudança de mentalidade e de comportamento ocorre de forma efetiva. A trajetória e as reflexões no campo da execução penal sustentam a convicção de que não se constrói uma sociedade segura por meio do punitivismo isolado, mas sim através de método, presença institucional e da premissa fundamental de que “todo homem é maior do que o seu erro e a sua culpa”.











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