Recuperandos da Apac de Itaúna/MG frequentam faculdade à distância. Importância da educação para a reabilitação é destacada por profissionais e estudantes

 

Todos os dias, o juiz da 1ª Vara Criminal, Paulo Antônio de Carvalho, recebe cartas de detentos vindas da Cadeia Municipal com pedidos de transferência para a Associação de Proteção e Assistência aos Condenados – Apac Itaúna. Os pedidos são avaliados e, a medida que as vagas surgem, as solicitações são atendidas. O motivo de tanto interesse é que o sistema adotado na Apac é inovador, mais humano e realmente oferece chances para que as pessoas que cometeram delitos possam recomeçar a vida fora dos muros do local. Uma chance que chega a 80% de recuperação.
Um dos requisitos para cumprir pena na Apac – nos regimes aberto (para trabalho fora do local), semiaberto e fechado – é voltar a estudar até terminar o Ensino Médio. Para isso, um pólo da Escola Estadual Padre Luiz Turkenburg foi criado dentro da Apac, com uma equipe de 16 professores contratados pelo governo do Estado, além de diretora, pedagoga e uma estagiária de Pedagogia. As aulas são divididas por turnos, nos auditórios da associação, tanto no regime fechado quanto no semiaberto, e acontecem na parte da tarde para os anos iniciais, e à noite, nos anos finais até o Ensino Médio.
Atualmente, dos 156 recuperandos, 94 frequentam o Ensino Fundamental nos anos iniciais; 12 no Ensino Fundamental nos anos finais; e nove estão fazendo faculdade à distância, nas áreas de Administração, Ciências Contábeis e Ciências Econômicas. Os cursos são ministrados pela Faculdade FEAD, que disponibiliza as provas para serem aplicadas dentro da Apac.
O que para o jovem de 23 anos Wescley Mariano é um recomeço. Cursando o terceiro período de Ciências Contábeis, Wescley está na Apac há um ano e cinco meses por envolvimento no tráfico de drogas, e acredita que estudar é uma oportunidade que não teve na rua. “A Apac dá a oportunidade para a gente se reintegrar à sociedade, competir no mercado, estar um passo a frente. O estudo contribui para gente como pessoas, ainda mais com as matérias sociais, Filosofia e Sociologia, que mostram a sociedade de forma diferente”, disse.
Fora da Apac, Éder Henrique, de 20 anos, havia parado de estudar no Ensino Fundamental, e há sete meses no local (por assalto) está cursando o quarto ano. “A escola me trouxe novas coisas, quero continuar quando eu sair, fazer supletivo. Eu mal sabia ler e agora já estou quase lendo e escrevendo sozinho. Também há o respeito da professora, que trata a gente bem”, explicou.
Futuro que também é enxergado por Antônio Mendes, de 37 anos, que está na Apac desde 2013, condenado por homicídio durante uma agressão. Trabalhando na cozinha da associação, ele também divide o tempo com as aulas do 1º ano do Ensino Médio. “É um benefício, uma oportunidade que nem sempre as pessoas têm na vida. Ano que vem pretendo cursar a faculdade de Agronomia”, afirmou.
Os profissionais que contribuem para o desenvolvimento dos recuperandos e acompanham o andamento das aulas também vêem apenas benefícios no funcionamento da escola. O analista jurídico da Apac, Mauro Pereira de Abreu Júnior, destaca a melhora na disciplina e senso crítico dos mesmos. “À medida que estudam mais, se interessam por regras e leis, até porque lá fora transgrediram normas, havia falta de disciplina. Aqui só aumenta o respeito com o próximo e com os profissionais”, defende. “O ensino só tem a somar. Com a formação profissional, serão melhor vistos lá fora. Mesmo os que rejeitam a escola no início, dizem que não precisam, depois mudam de opinião”, garante a estagiária Fernanda Aline de Sousa.

Fonte: Jornal Folha do Povo de Itaúna

Fernanda - APAC Itana

 Fernanda Aline de Sousa, estagiária de pedagogia da Apac

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